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Força de vontade e amor pela zona sul

Ações, Causas, Cultura, Porto Alegre

30 de agosto 2012 por Maria Clara Aquino

No início de abril, a Jacqueline Custódio cadastrou essa causa lá na plataforma, em busca de pessoas que quisessem se engajar na tentativa, já iniciada pela comunidade, de transformar a antiga fábrica de Artesanato Guarisse em um centro cultural.

Até 2007, o espaço serviu como sede do Fórum Tristeza e depois passou a abrigar o CCD – Centro Comunitário de Desenvolvimento da Tristeza. Em maio deste ano, foi realizado um piquenique no local; ação que foi pensada nas reuniões de voluntários do Porto Alegre.cc.

Via e-mail e Facebook, conversei com a Jacqueline para que ela nos contasse como foi o primeiro contato dela com o espaço e como a situação vêm se desenrolando desde que ela se envolveu nessa luta.

Em sua fala, Jacqueline conta porque decidiu cadastrar a causa no PortoAlegre.cc, e mostra o quanto é importante a participação, o trabalho voluntário e a vontade de recuperar e reocupar esses lugares tão lindos de nossa cidade :)

Poa.cc – Quem é a Jacqueline Custódio?

Jacqueline - Eu nasci na zona norte, mas aos 9 anos vim morar na Vila Assunção. Hoje, moro na Vila Conceição. Então, há mais de 40 anos sou uma apaixonada pela zona sul da cidade. Fiz meus melhores amigos por aqui e andava com eles pelo bairro todo (sem o medo que se tem hoje).

Acabei de me formar em Direito, pela Fundação Escola Superior do Ministério Público (dia 25 de agosto). É a minha terceira faculdade: minha primeira foi medicina (com especialização em Medicina do Trabalho) e a outra, artes plásticas (especialização em fotografia), ambas na UFRGS. Mas trabalho na empresa de meu marido, fazendo a parte financeira. Meu trabalho de conclusão em direito foi ” a participação popular na defesa do patrimônio público na cidade de Porto Alegre”. Nesse TTC, eu trago 4 casos, entre eles o do centro cultural.

Poa.cc – Como iniciou o teu envolvimento com o complexo de prédios da zona sul? 

Na verdade, eu comecei a me envolver com o assunto patrimônio/urbanismo por conta da venda de uma passagem de pedestres na Vila Assunção, feita de forma irregular pela prefeitura. Na época (2009), eu participava de um grupo de estudos sobre direito urbanístico, fizemos um dossiê e levamos ao Ministério Público. Foi aberto um inquérito civil, com vista a uma ação civil pública. Para levantar dados, fui conversar com entidades representantes dos moradores. Com isso, acabei me envolvendo nas eleições para o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental, no qual me elegi delegada pela RP6 (que representa a zona sul). Com isso, acabei conhecendo a Ângela Pellin, que já há mais tempo lutava para transformar o complexo da Landell de Moura num centro Cultural. Eu já conhecia o lugar, do tempo em que era o artesanato Guarisse, mas principalmente por ter casado no civil ali, quando já era o Fórum da Tristeza e sempre achei muito lindo o espaço. Quando ela me disse que lutava para torná-lo um centro cultural, achei que destino melhor não poderia ser dado e me engajei na luta.

Poa.cc – Desde quando estás engajada em transformar o espaço em um complexo cultural?

Jacqueline -Acabei me engajando no início de 2010, participando de reuniões da entidade que encabeçava o movimento.

Poa.cc – Conte um pouco sobre a trajetória (dificuldades e conquistas) desse trabalho em busca de apoios e parcerias com o governo e movimentos para que o complexo pudesse se concretizar?

Jacqueline -Foi um processo bastante longo, com muitos contratempos (desde 2005).  A proposta de projeto passou por três governos estaduais (Rigotto, Yeda, Tarso). Sempre que havia a troca, era preciso começar de novo. A primeira proposta, ainda no governo Rigotto, era transformar o lugar no Museu Antropológico do Estado. Depois, voltou-se a pensar no local como um centro cultural, conforme o projeto apresentado. Mas, como o local pertencia não só à secretaria da cultura, seu outro “dono”, a SUSEPE, queria que ali fosse um albergue para apenados do regime semi-aberto (!). Na melhor das hipóteses, que fosse uma quadra poliesportiva para os filhos dos apenados, descaracterizando o conjunto arquitetônico.

Também estiveram no local representantes de lojas maçônicas, interessados no espaço. As coisas pioraram quando houve um certo desconforto partidário em relação à Ângela Pellin, que concorria (e atualmente concorre) à vereadora    por um partido diferente do  atual governo estadual. Buscou-se apoio de vereadores do PT, na época em que a Sofia Cavedon estava na presidência da Câmara de Vereadores, mas sem muito sucesso. Chegamos a falar com o secretário estadual  de esportes, Khali Sebeh, na tentativa de mobilizar recursos da Copa para a construção de um polo turístico e de artesanato, em associação com a SMIC. Mas, as coisas não foram adiante. Foi então que dei a ideia de colocar “na rede ” a causa, a fim de mobilizar o público em geral.

Poa.cc – Quem são os grupos e pessoas que estão diretamente envolvidos contigo nesse processo?

Jacqueline - A principal entidade que está envolvida no processo é o Centro Comunitário de Desenvolvimento (CCD), do qual a Ângela era presidente. Além do CCD, tem outras entidades como o GET (grupo de empresários da Tristeza),  Feira de Artesanato da Tristeza, Radio Comunitária Ipanema,  AMBI (associação do bairro Ipanema), RP6, entre outros. Mas, com exceção do CCD, os grupos têm uma participação bem tímida no processo. Atualmente, o CCD conta com um presidente bastante jovem. Isso influenciou, e muito, a participação de uma parcela de jovens cidadãos no movimento.

Posso citar Guilherme Accetta (presidente), o Thiago Ramil Magalhães, Lucas Ferreira. É um pessoal que tem uma banda e que, através da música, está conseguindo mobilizar seus amigos.

Poa.cc – Quais as tuas expectativas para a concretização do projeto agora que a parceria foi estabelecida?

Jacqueline - Bem, passada a fase burocrática, que é acertar os instrumentos de cessão de uso para todos os prédios e formalizar o condomínio para a administração comum, teremos que começar a captar recursos para aquilo que for eleito como passo inicial. Por exemplo, a biblioteca é um dos primeiros equipamentos culturais que deve ser implementado. Já existem muitos livros para o acervo e uma feira do livro que ocorrerá na praça da Tristeza, em outubro, fará coleta de mais livros que pretende doar para a biblioteca comunitária. Outros equipamentos, como é o caso do teatro, vão demandar uma negociação. O local tecnicamente apropriado para a sala, não está no prédio destinado ao pessoal do teatro e, sim, no prédio do MTG, que é o maior.

Minha expectativa é de diálogo e de visão do espaço como único, apesar de cada entidade ser responsável por seu prédio. O MTG já demonstrou que tem um espírito de colaboração, doando tinta para a pintura do prédio do CCD. Outra expectativa que se tem é receber algum recurso proveniente da preparação da Copa, já que a SECOPA e a SMIC são parceiras, via administração municipal. É possível que logo se implemente um bistrô/café para já começar a trazer visitantes. O certo é que temos muito trabalho pela frente.

Poa.cc – Por que decidiu publicar a causa no PortoAlegre.cc? 

Jacqueline - Como eu já referi, achei que se pudesse colocar na rede a luta e o espaço, poderia conseguir força de mobilização. Já da experiência com as passagens, vi que era muito importante mobilizar o maior número de pessoas. Também analisando os casos para o meu TCC, vi que a Rua Gonçalo de Carvalho teve a força que teve, por conta da grande capacidade de mobilização, que se deu em grande parte através da internet.

Conheci o site do PortoAlegre.cc (se não me falha a memória), no lançamento do V Congresso da Cidade. Achei sensacional a ideia e já cadastrei a causa das passagens da Vila Assunção (que até hoje ainda não foi resolvido, embora o MP tenha suspendido todas as vendas até que os fatos sejam esclarecidos). Assim, depois que a conversa com o secretário de esportes não mostrou resultados (a conversa foi em janeiro 2012), decidi colocar a causa no site. O legal é que teve a oficina, aqui na Zona Sul, onde conheci a Aline Bueno. Por coincidência, nas três oficinas (zona sul, Anchieta e centro), o centro cultural zona sul foi escolhido como causa para trabalhar. Resolvemos, na ocasião, fazer o piquenique, ocorrido em maio. Depois daquele evento, a coisa tomou outra proporção. Foi divulgado como evento no facebook e o movimento começou a ter força novamente. Depois, abaixo-assinado virtual, reunião chamada via facebook, fanpage, jornais, sempre dando visibilidade à causa.

Depois do piquenique, procurado pela imprensa local, a prefeitura se posicionou favorável, através da fala do Plínio Zalewski. Já o governo estadual, não quis se manifestar. Em poucos dias, noticiaram pela grande imprensa que já havia sido feita a partilha dos prédios, segundo decisão de uma suposta audiência pública ocorrida em 2011. A partir dessa informação, recorremos às secretarias cultura e da administração estaduais questionando sobre os critérios e a dita audiência pública. Também pedimos que o secretário Afonso Motta intercedesse junto à Casa Civil sobre o assunto. Ao mesmo tempo, entramos em contato com a secretaria da governança (municipal), através do sec. Busatto. Enfim, “esperneamos”.


Foto: arquivo pessoal e Ana LCBarcellos